O Problema não é o Câmbio

Reclamar do câmbio já está ficando cansativo, principalmente porque o problema que estamos enfrentando não está aí. O problema da economia brasileira não está no real valorizado mas sim na proteção da lucratividade da atividade das empresas. Desta forma, quando o real se valoriza, a lucratividade das empresas é afetada, pois, elas têm seus custos em reais e a receita em dólares (menos dólares, com o câmbio baixo). Porém, o problema visível, posto que expõe este risco de redução de lucratividade é o câmbio, mas na verdade não é esse o maior entrave da economia brasileira. O nosso maior problema é estarmos crescendo para um nível de economia de primeiro mundo, mas, ainda com a mentalidade retrógrada de terceiro mundo.
Na verdade, é uma ótima hora para ser investidor estrangeiro no Brasil (apesar do IOF). Todos os benefícios de uma taxa de juros altíssima, com isenção de imposto de renda nos títulos do tesouro nacional. Além disso, os estrangeiros ainda têm a vantagem de não consumir aqui, onde os preços de tudo estão absurdamente altos. Mas, a cada dólar que ingressa no país força a cotação da moeda para baixo. Por outro lado, sendo brasileiros, somos penalizados por um sistema nocivo de estrutura de custos para os empresários e para a população como um todo. Os altos custos começam nos impostos sociais: para se contratar um funcionário custa no mínimo duas vezes o valor do salário para a empresa, mais os benefícios conquistados pelo trabalhador, como vale-transporte, vale-refeição e convênio médico. O funcionário,por sua vez, ainda paga imposto de renda e outros descontos na folha de pagamentos. Depois, as empresas pagam diversas taxas, impostos e contribuições. Este é o maior problema da economia brasileira: o nosso maior sócio em tudo o que fazemos e consumimos, de forma direta ou indireta.
Isso começa no produtor, o governo como sócio. Passa pela transportadora, pelo distribuidor, pela transportadora de novo, pelo comércio (Loja, Supermercado, etc.) até chegar ao consumidor final que é o funcionário citado ali em cima (que também tem o governo como sócio), que já recebeu um salário pífio e já foi descontado em folha dos impostos e outras coisas. Depois, vamos para os bancos. Nós temos orgulho ao constatar que o Brasil tem um dos sistemas bancários mais eficientes do mundo, com alta tecnologia e com instituições sólidas. É verdade, nós temos. O problema que ainda persiste e nos impede de termos um crescimento sustentado, com equilíbrio e com lucidez é justamente a mentalidade do sistema financeiro brasileiro. Enquanto as instituições são ótimas, sólidas, líquidas e com bastante tecnologia, ainda têm a mentalidade exploratória terceiro-mundista. Os bancos não gostam de correr riscos. Gostam sim, de explorar a falta de conhecimento financeiro da maioria das pessoas e como resultado, temos o sistema financeiro mais, mas, muitíssimo mais lucrativo do mundo. O spread bancário é de longe o maior do mundo em termos reais para economias estáveis. A maior parte das operações reais de fomento da economia, aquelas que levam o país para frente, são feitas e disponibilizadas por bancos federais, como o BNDES, Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil. Isso aumenta o custo de todas as coisas e todos os produtos no país. Os repasses de todos os custos, de juros, de taxas, impostos e contribuições são ulteriormente pagos pelo consumidor final.
Passamos agora para erros estruturais. A caderneta de poupança. A caderneta de poupança nasceu com o nascimento da Caixa Econômica (da Corte), criada pelo Decreto nº 2.723, de 12 de janeiro de 1861, por Dom Pedro II. Com a intenção de criar um mecanismo que facilitasse e incentivasse as classes mais baixas a pouparem, ele inclui o detalhe de que a poupança deveria pagar 6% ao ano com a garantia do governo “Imperial”. Até hoje estamos travados nestes 6% e mais a Taxa Referencial (TR). Isto é um entrave para o setor financeiro por não respeitar as leis econômicas de oferta e procura e não serem condizentes com a realidade das taxas de juros praticadas no mercado. Além disso, ferem o próprio princípio para o qual foram criadas. E… impedem as taxas de juros do mercado de caírem para patamares inferiores a 8%.
A população desconhece finanças, uma matéria que deveria ser incluída na escola elementar.
Do outro lado, temos a moeda americana frágil contra todas as moedas mundiais. Isso ocorre pelo simples fato de terem cometido erros gravíssimos ao longo de décadas, com nenhuma prudência em nenhum dos quesitos que eles adoravam apontar como erros nos outros países. As contas macro-econômicas estão deterioradas há muito tempo, como a balança comercial deficitária, déficit fiscal, excessivos gastos governamentais, alto endividamento e baixa reserva internacional (principalmente depois do abandono do padrão-ouro). A economia está em recessão e a população está endividada. O dólar ainda deverá cair mais antes de mostrar um sinal de recuperação ameno nos próximos anos.

Portanto, devemos mudar o que podemos do nosso lado e preservar a lucratividade de nossas empresas atacando os problemas verdadeiros.
O mercado financeiro Brasileiro ainda está engatinhando. O mercado necessita ainda evoluir muito, com o advento de verdadeiros instrumentos de hedge a preço justo, com vencimentos mais longos, com alternativas reais de proteção contra movimentos adversos nos diversos ativos e commodities existentes, com opções de compra e de venda com liquidez, com mercados futuros mais líquidos nos prazos médios e longos, com fundos de diversos estilos negociados em bolsa (Exchange Traded Funds).
Estamos habituados a reclamar do câmbio, do dólar, o “exportar é o que importa” para fazermos crescer nossas reservas. Temos reservas suficientes para nos assegurar o crédito e o respeito internacional. Isso nos protege e nos dá fôlego para irmos mais longe. Mas, está ficando caro demais com nossas taxas de juros internas contra a taxa de juros externa que recebemos nas nossas aplicações no exterior.
O investidor estrangeiro está certo, investir no Brasil. Mas, consumir, no exterior onde as taxas de juros são menores e a “sobre”-carga tributária é muito, muito menor.
O problema está no câmbio? Eu tomei um café espresso recentemente em Paris e paguei R$1,70. O café era brasileiro e a marca era italiana. Em São Paulo, um café esta saindo por volta de R$ 3,00. Não, definitivamente o problema não é o câmbio! Com uma carga tributária menor, poderemos ter uma taxa de juros menor. Todos os custos irão ser menores e a lucratividade das empresas e indústrias estará assegurada. Sinto pelos bancos, pois terão que se adaptar a ganhar menos e trabalhar mais pelo seu lucro. O governo, deverá se desinflar para desinflar a economia dos impostos e assim, de verdade, estará ajudando toda a população, principalmente os mais pobres.
Ricardo Della Santina Torres

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