O polegar de César na mão das agências de classificação de risco… Artigo que escrevi para o Valor Econômico, publicado em 09 de abril de 2010

O Polegar de César na mão das agências de risco

16/03/2010, publicado em 09 de abril de 2010, no jornal O Valor Econômico

A ausência de dedicação na avaliação de risco por parte dos investidores criou a oportunidade da existência das agências de classificação de risco. Nada mais que uma terceirização da análise do risco, do potencial futuro de pagamento dos emissores de dívida, as agências ganharam uma importância mítica.
As análises envolvem a apuração que uma empresa, um governo, apresentam ao longo do prazo de poder cumprir com suas obrigações assumidas em empréstimos e em títulos emitidos nos mercados financeiros.
A falta de bom senso dos investidores permitiu que estas empresas tivessem um poder exacerbado sobre a decisão do futuro dos emissores.
Um poder como o de César, polegar para cima, o país vive, polegar para baixo, a morte ou quase-morte financeira, um poder de jogar vidas das pessoas em condições duradouras de pobreza e de dificuldades financeiras por dificultar a captação de recursos. De acordo com a classificação ou “rating”, o país capta mais recursos a taxas baixas ou menos recursos a taxas de juros elevadas, atrapalhando a recuperação econômica mais rápida.
Eles sempre estão atrasados em sua análise, nunca conseguem prever os problemas verdadeiros de solvência com tempo hábil para que os investidores que contratam seus serviços possam antecipar potenciais problemas reais. Porém, sempre são muito rápidos com países menores ou de menor importância na avaliação deles. Ainda assim, eles permanecem imponentes, os donos do futuro e do destino de milhões de pessoas.
O Brasil sofreu muito pelas métricas de análise destas agências, com avaliações sempre muito abaixo do nível de investimento. O rigor infundado aplicado às avaliações a nós auferidas nos anos noventa e até recentemente, pouco refletiram da verdade do risco real apresentado. O risco é avaliado pela boa intenção de pagar dívidas, aliado ao potencial de geração de riqueza pela economia e pelo histórico de pagamentos passados. A cada pequeno incremento na classificação de risco, uma pequena melhora nas taxas de juros da captação do país e subsequentemente, todas as empresas dentro do território do país se beneficiam pagando também, taxas de juros mais baixas. Nós tivemos que pagar taxas de juros sempre mais altas por causa destas agências, atrasando o crescimento do Brasil por décadas.
O poder do polegar de César não avalia a vida e o futuro de Roma nem de seus aliados. Até que não seja mais possível evitar. A pressão numérica da métrica utilizada na classificação começa a pesar.
Um perigo iminente para a economia global, pois os investimentos feitos para aplicação das reservas dos países que financiam o déficit americano requerem uma classificação mínima de três Azes. Se as agências observarem o mesmo rigor que utilizam para países menores teremos um potencial caos e debandada da moeda americana. Os estragos serão enormes e imprevisíveis porque os países que aplicam suas reservas nos títulos do tesouro americano e inglês serão forçados, por estatuto, a venderem os títulos e buscarem outros equivalentes que apresentem a classificação de risco AAA. Ou, os países terão que rapidamente mudar o estatuto e o mandato de seus departamentos do tesouro e dos bancos centrais para abraçarem a nova realidade do planeta.

Um poder exagerado em mãos da iniciativa privada. O mundo está de sobressalto e infelizmente, para eles e para nós, a própria força que lhes foi dada pelo mercado ao longo dos anos será confrontada pelo paradoxo da hipocrisia. A função de proteger os investidores nem sempre é atendida pelo atraso em antecipar deteriorações no potencial futuro dos países poderem pagar todas as dívidas contraídas. Nos últimos tempos, o atraso na avaliação foi uma constante com países e com empresas e foi crucial durante a crise deflagrada em 2008, não antecipando a fraqueza financeira de certos bancos e países que ainda mantinham classificações elevadas e vieram a falir.
Ainda assim, a importância e respeito que o mercado lhes confere é muito grande.
O poder de profetizar o passado não serve para grande coisa e nem tampouco o de fechar os olhos para os erros do presente. Os investidores devem iniciar uma mudança em seus conceitos e começar a fazer a lição de casa, avaliando os riscos nos investimentos por suas próprias métricas. A possibilidade de uma redução na classificação de risco para os Estados Unidos e da Inglaterra poderão causar um caos financeiro no planeta e uma degringolada nas cotações de suas moedas. Poucos países e poucas moedas apresentam as condições de substituir a abrangência e profundidade de base monetária, mercado financeiro evoluído e a liquidez do dólar americano. Porém, mudanças estão diante de nós, devemos nos preparar e acreditar que esta crise atual irá passar. O Brasil, contra tudo e contra todos, se superou nestes anos, sem a ajuda das métricas das agências, sem os ratings que merecia de fato. Nós superamos os obstáculos e hoje temos uma economia saudável, com uma moeda atraente para bons investimentos e bons retornos, com segurança.
O meu Polegar de César está para baixo para as agências de classificação de risco.

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