Disputa pela supremacia

A itália lançou um bônus de 5 anos esta manhã na Europa e consegui captar EUR 3 bilhões a 6,29%. Excelente notícia, ainda que caro para o país, bem mais barato do que se pensava na semana passada. A Itália é a terceira economia do bloco do Euro, tem receitas altas de exportação e tem receitas altas de turismo positivo, recebe mais turistas do que envia para o exterior. Os italianos não são endividados, são donos das prórpias casas e sem financiamento hipotecário, junto com o Chile e o Japão, é o povo que mais acumula poupança no planeta. O sistema bancário e financeiro utilizado no mundo hoje foi criado na Itália e os italianos, “nós”, sabemos bem o custo elevado para a economia de um país que declara default. Desta forma, não é possível e nem real a Itália estar com o problema do tamanho que pintam. É apenas uma manobra manipulativa dos euro-céticos que buscam minar o bloco europeu que é muito forte unido, e muito fraco desunido. O Bloco do Euro tem um PIB maior que o dos americanos e sua moeda é a única que pode substituir o dólar nas transações comercias do mundo. Ter sua moeda como moeda principal de conversibilidade e trocas comerciais é um mecanismo de marketing institucional e gerador de grandes receitas e domínio. O dólar está perdendo este status pela fragilidade econômica do país e de seus erros estratégicos na condução da política interna e econômica. Desta forma, pegando a Itália, a busca seria na próxima volta para pegar a França e em seguida a Alemanha. Na sequência, adeus Euro… Bom, é muito óbvio que este é o truque e os euro-céticos vão tentar de toda forma desunir o bloco e acabar com o Euro. Não vão conseguir. Se o dólar estivesse lasterado numa economia real, produtiva, com as contas macro-econômicas da América em perfeita ordem, talvez conseguissem, ou mesmo, nem precisassem se preocupar com o Euro… mas isto não é verdade. O Dólar está sendo impresso sem lastro, os americanos importam USD 750 bi a mais do que exportam (este ano), a dívida total americana é de USD 55 trilhões aproximadamente e um PIB de USD 15 trilhões. As famílias americanas estão endividadas e a taxa de poupança interna é baixíssima. Em suma, uma batalha está sendo travada para tomar a supremacia que foi da Libra Esterlina até 1945 e do dólar americano desde então. Hoje a fraqueza do dólar abriu espaço para uma disputa que o Euro está saindo na frente, então, é o foco da disputa e a estratégia é a de minar as forças do Euro, dado que não estão conseguindo melhorar os fundamentos do dólar. Para os investidores, é como se estivéssemos assistindo dois Tiranossauros Rex brigando, tentando entender quem vai ganhar para sabermos onde nos esconderemos… Bem, em momentos históricos como esse, temos que fazer posições de curto prazo, buscar ativos reais ou fazermos inserções rápidas para nos beneficiarmos da volatilidade. Em efeito, buscamos um abrigo até que a situação seja resolvida, mas isso pode demorar mais de um ano ainda.

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7 Responses to Disputa pela supremacia

  1. Zão says:

    Hehe, dois Tiranossuros brigando foi ótima, mas a comparação é por aí mesmo.

    Eu ficaria extramamente satisfeito com a derrocada do dólar, não apenas por um aspecto econômico (acho que uma renovação no quadro mundial seria boa), mas também porque acho que a cultura americana se degenerou ao ponto de ser perigoso tê-los como manda-chuvas do mundo. Eles são como Roma em seus últimos dias: inchada, corrupta e degenerada.

    A única coisa que me preocupa mesmo nessa briga é que, com a eminente derrota do Tiranossauro vestido de Tio Sam, e com isso a perda da supremacia mundial, o orgulho americano os faça apelar para soluções militares. Desculpas não faltariam. Afinal, os americanos sempre inventaram uma desculpa para todas as invasões militares que fizeram a países soberanos nas últimas décadas. Só teriam que trocar o conto de fadas de “libertar um povo oprimido de um ditador cruel” por um outro qualquer, já que não há ditaduras na Europa.

  2. J.R. Vensan says:

    Nossa, lendo isso e vendo a entrevista do presidente do Dallas Federal Reserve (que é uma empresa privada, se não me engano) na CNN e sabendo do que você disse aí em cima (e falou hoje para o video-blog – os vídeos estarão no ar esta noite), dá para ver nitidamente o jogo de cena dos americanos acontecendo.
    Sob uma aparência de autoridade (que me parece ser uma cara-de-pau danada), ele diz sem meias palavras que os bancos centrais (the fiscal authorities) dos países da Zona do Euro precisam se comportar direitinho para demonstrar aos especuladores (the “bond markets”) que querem sobreviver, e que devem lidar com o que ele chamou de “bond market vigilantes”.
    Achei ótimo.
    Link para o vídeo: http://www.myvidster.com/video/3305155/Fed_provides_no_lifeline_for_ECB
    Um abraço
    JR

  3. rcesar says:

    Qual é o custo elevado de uma economia que declara default? Não poder mais pedir dinheiro emprestado? Isso não seria uma coisa boa? Se a Itália tem uma economia forte, como você disse, com turismo positivo, poupança alta, parar de tomar dinheiro emprestado seria passar a viver dentro de suas possibilidades. Isso não é ruim pra ninguém. Não vejo problema para a Itália pedir o default.

    O problema que pintam da Itália é grande e é real. Dívida de 121% do PIB é um absurdo e é impagável, a não ser que a Itália começasse a ter superávits enormes, o que não vai acontecer no atual cenário.

    O grande problema da Europa hoje (dos PIIGS mais precisamente) é a exposição dos bancos europeus as suas dívidas soberanas e a exposição dos 4 big americanos aos bancos europeus com os derivativos e CDSs. A Rua Parede vai fazer de tudo para os PIIGS não declararem default e evitar um “credit event” que arrasaria os bancos europeus e americanos, e jogaria o mundo numa depressão aos moldes dos anos 30.

    A Alemanha está resistindo a ideia de deixar o BCE comprar os bônus dos PIIGS e com isso desvalorizar o Euro. Eu não vejo outra saída senão a intervenção do BCE. Não que isso seja bom, muito pelo contrario, o melhor seria mesmo deixar esses países darem o calote, deixar os bancos europeus e americanos quebrarem e zerar essa montanha de dívida que o mundo está atolado. A intervenção do BCE parece inevitável no contexto de continuar com as políticas de bailout e manter os bancos europeus vivos.

    Nesse contexto, não é mais uma disputa pela supremacia de quem terá a moeda de reserva internacional. Agora é uma luta pela sobrevivência (do setor bancário) e eles vão fazer de tudo para não perder o controle que eles tem hoje, com ou sem o Euro unido.

    • tradingcafe says:

      Olá RCesar, benvindo, intessante tua opinião, mas não está correta. A Italia já carrega essa proporção dívida/pib há mais de duas décadas. O risco elevado de um default para um país é sim, não captar no mercado aberto, mas não só para o governo, na dívida soberana, mas, também e principalmente nocivo porque afastam os investidores de tudo, da dívida corporativa também, além dos investimentos diretos que não virão por longo tempo pois o país entra numa recessão e ocorre a perda de poder de compra dos consumidores, um empobrecimento geral; A Italia cobra impostos altos e com eficácia e a economia tem como reagir. Depois, é óbvio que eles terão que cortar gastos e já estão fazendo os ajustes com demissões e aumento da idade de aposentadoria. Ademais, os italianos detém grande capital em poupança no exterior, que como já ocorreu no passado, eles podem trazer recursos do exterior para resgatar o país. Até os americanos já fizeram isso no passado.
      Agora, com relação ao mercado de CDS, você parece conhecer muito bem, mas apenas um detalhe, você não citou as garantias do CDS em caso de um “credit event”. Os contratos do ISDA contém um CSA, que consta a colateral oferecida, que pode ser cash, o próprio bond do emissor ou de outro. Os bancos, sabem administrar riscos e nas mesas de tesouraria, os CDS’s vendidos tem limitações de cobertura. Basicamente, você vende o CDS short (fica long no crédito) no mercado e cobre total ou parcialmente o risco, vendendo a descoberto o bond também. Você recebe os coupons do comprador do CDS e paga o coupon no aluguel do bond no repo market. Muito bem, se os preços do CDS de um emissor abrem, os preços relativos dos bonds, da dívida negociada no mercado primário e secundário, caem, aumentando o spread de risco sobre o benchmark. O preço do CDS sobe e o preço do bond cai. Quando o default se materializa, os bancos compram então o underlying a preços muito mais baixos (taxas de juros mais altas) e estão cobertos ou ainda eles podem intermediar diretamente o CDS fazendo o hedge direto, mas aí com risco de contraparte. Se houver um “credit event”, os bancos entregam o underlying… que são os bonds que compraram lá embaixo, com preços baixos e realizam lucro… Até num credit event… Ainda, quando o risco de um país aumenta, aumentando a probabilidade de um default, os preços negociados viram puramente probabilidades estatísticas de defaults. Os preços dos bonds (underlying) caem automaticamente para próximo de 50% (50%-50%), quando o default se torna mais evidente, os preços caem mais para baixo. Quando o default se aproxima, a probabilidade de fazer um default organizado aumenta, com uma renegociação da dívida, que historicamente não passa de 50% de perdão. Outra oportunidade de ganhar dinheiro. O problema dos bancos é na verdade com a desregulamentação, o excesso de alavancagem e o não-respeito às regras da Basiléia II e III. Principalmente, sorry to say, os bancos americanos. Os bancos europeus, por outro lado, são menos alavancados, mas o risco deles está em serem proprietários de bancos na Grécia, na Itália, em Portugal, que por operarem no mercado local, são obrigados pela regulamentação do Banco Central local de comprarem os títulos do tesouro local do país para integralizarem o capital regulatório e os depósitos compulsórios para regular a multiplicação da moeda. valeu, muito obrigado pela participação, abs

      • rcesar says:

        Oi Ricardo,

        A proporção dívida/pib da Itália se manteve nesse patamar por 20 anos mas o PIB vem subindo. Consequentemente a divida vem subindo também, correto? E dívida que não se paga só aumenta por causa dos juros, certo? Em cima disso se poe mais dívida. Quer dizer, o país cresce mas a dívida cresce junto e boa parte desse crescimento vai financiar os banqueiros.

        O Default significa calote, não pagamento e repudiação da dívida. Vai causar recessão? Claro. No momento do default vai ter uma enorme retração. Mas daí o país coloca a casa em ordem e passa a viver dentro de suas possibilidades. É até bom não ter mais empréstimos o que garante não haver mais exageros.

        A opção é continuar escravo desse sistema de dívida eterna que só beneficia o setor bancário, certo?. Já sei o que você vai dizer, o empréstimo é importante
        para manter o crescimento econômico (vou falar a minha opinião sobre crescimento econômico abaixo), poder investir em infra-estrutura, etc. Mas crescer a base de dívida está se provando ser uma furada. Veja a situação que o mundo se encontra hoje, veja a montanha de dívida pública, privada e “future liabilities”. Isso é insustentável. Eu gosto muito de uma frase do Patrick killelea: “Dívida é escravidão”

        Eu sou a favor do default, mesmo sabendo das consequências. Veja o caso da Islândia. Tudo bem, Islândia é infinitamente menor que a Europa e a consequência do calote da Europa seria muito maior. Mas continuar nesse sistema vai nos levar aonde? Até quando conseguiremos continuar assimilando dívidas? E para pagar essas dívidas temos que crescer acima da dívida. Até quado teremos capacidade de continuar crescendo indefinidamente? Você já assistiu as palestras do professor Al Bartlett sobre crescimento exponencial?

      • tradingcafe says:

        Oi RCesar, concordo com tua opinião sobre dívida ser escravidão, o Brasil mesmo é uma prova disso, pagamos o FMI e reduzimos nossa dívida externa ao longo dos últimos dez anos, foi execelente e saudável para o país, mas o default não é o caso para Itália. Valeu, obrigado, abs

      • rcesar says:

        Ricardo,

        Sobre o CDS, o que você quer dizer é que o banco vende short e recompra quando o valor do bônus cai assim que o default é eminente, algo parecido com o que os bancos fazem com os ETF de metais preciosos, inundando o mercado com ETF (vendendo short) e fazendo os preços caírem para depois recomprar na baixa ganhando no spread. É isso?

        Se é isso mesmo, aí vem uma outra dúvida. Se o CDS é um seguro contra um “credit event” sobre um bônus, porque os portadores do bônus venderiam na baixa se ele está segurado?

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